ensaio
Antes que eu lute pelas coisas erradas
As borboletas sobrevoam o campo de margaridas, as minhas flores preferidas que nunca mesmo foram minhas. A disparidade torna-se iminente nitidamente pelos meus olhos, à medida que observo o que e quem me cerca, deficiente de identificação e pertencimento. A solidão se aloja em mim. O amor queima de dentro para fora, com ossos e tudo. De todas as coisas bonitas que já chamaram a minha atenção e me derrubaram de joelhos, a que mais me fez sentir foi qualquer poesia que você permitiu que escorregasse pela sua boca sobre como não podemos confiar em ninguém, mas você confia em mim desde que me avistou pela primeira vez. À medida que eu sonhei nas últimas noites sobre os diversos contextos utópicos nos quais a sua língua se sobrepunha à minha com selvageria, percebi que as coisas belas parecem feias externamente pois a beleza jaz no centro desse fogo que se recusa a ser apagado.
Tornei-me extremista e passei a aceitar, sem pensar direito, os defeitos daqueles que amo, com cada escuridão e crueldade — inteiramente, dentro de mim. Diz-se que devemos aceitar radicalmente tudo que somos ao passo que jamais podemos desistir de tentar melhorar o que é bom e mudar o que é ruim que é a forma peculiar como cada um de nós tenta destruir a si mesmo quando percebemos que precisamos nos submeter a alguma coisa. A síntese do homem bom é ser selvagem em peito e alma, ao passo que saber dominar o seu ópio. O amor tem a capacidade de engolir o homem vivo e levar o inferno à terra para que possamos ter uma incessante chance de mirar a flecha, que uma vez atiramos ao acaso, em direção à virtude e de amarmos uns aos outros até os ossos.
Era o meu pesadelo que se repetia todas as noites que me assombrava. Havia um cavaleiro, sobrevivente de guerra — ele estava exausto de tanto lutar pelas coisas erradas até voltar a ser somente pó — e eu era uma das flechas que ele usaria para treinar sua mira. Alguma coisa sempre acontecia a esse cavaleiro, de forma que, na minha vez, ele me atirava no ar frio e profundo, no qual eu permanecia, cortando o vento até ter hipotermia e morrer como um rebelde sem causa, sem propósito e sem fim objetivo. Eu acordava sempre antes do meu triste fim. Eu acordava e lia a Bíblia, voltando a Gênesis. Fomos Caim, conquistamos o pecado como ele não pôde, nos encontrando uma na outra quando nos levantamos contra a probabilidade maior de nos perdermos para a violência. Ao sangue do meu sangue, desejo que, quando os tempos difíceis chegarem, que abaixemos as nossas armas. E que esse meu sangue, com quem aprendi a amar primeiro, tome o lugar do meu arqueiro e me mire em alguma direção — e que eu, enquanto flecha, agora com propósito, possa atravessar o mundo sabendo que a miséria estará abaixo do nosso laço imutável.
Nos séculos passados, era crível que o tabaco em si e a nicotina não só eram inofensivos, como podiam ser de grande ajuda a aliviar o sofrimento psíquico. Mentes brilhantes perdidas para o vício propagado com sabor de chocolate. Professores fumavam maços de cigarro como se bebe água dentro de salas de aula e assim os alunos seguiam os seus exemplos. Todos temos o mesmo fim. O homem tem sempre o mesmo porquê. E o porquê de todos nós escorre pelas nossas bocas e mãos até as nossas pernas em fluidez única, sempre para baixo. Então mobilizamos tudo que não merece para lutar pelas coisas erradas, ocupados demais com os nossos próprios vícios. E assim volto a ser uma flecha sem rumo no ar congelante de noites sombrias. O sangue do meu sangue não pode me levantar sozinho. Ele precisa circular pelas minhas pernas quando o medo vier, o sangue que corre pelo meu corpo precisa decidir sobre o que vai batalhar e precisa escolher se vai lutar, fugir ou correr e, ainda refém do acaso, espero que eu lute. A luta, assim, apesar de saber do meu livre-arbítrio, tornou-se compulsória. Agora só me resta abraçar a causa.
Proponho um brinde aos megalomaníacos que tanto me inspiraram a não ouvir ninguém além do meu estômago que uiva fome, mesmo se isso derreter a minha pele como a de São Bartolomeu antes de mim, viver e morrer pelas margaridas que nunca foram minhas, pelas coisas bonitas e significativas, pelo amor que pulsa no meu peito e que dele transborda que há de tornar o mundo um lugar melhor. Eu sou a criança de Omelas e graciosamente continuarei a sofrer porque desta vez tenho escolha, e à medida que me debruço no chão em oração, me humilhando perante o único que se faz gentil mesmo diante das minhas feridas abertas, estando espancada e marcada perpetuamente, em nome do belo sacrifício da vida, eu juro solenemente que, todas as vezes, esticarei o meu braço que funciona, com a mão aberta para receber as minhas crianças companheiras de Omelas. Que sigamos o exemplo daquele que aceita a minha humilhação e que ama tanto que O tememos, que sigamos o exemplo Dele e carreguemos a cruz individual de nós mesmos. Há tempo eu carrego a minha, sempre de cabeça erguida, e agora tenho mira. É esta flecha que vos fala. Então ao homem com o qual eu sonho, talvez, por favor, me carregue e eu lavarei os seus pés. Permita que eu te carregue também antes que eu lute pelas coisas erradas até que moam os meus ossos. Por favor, me carregue.
