Malu Alves
escritora · ilustradora

ensaio

Alguma vez é casual?

14 de setembro de 2026

Estamos interligados? E eu? Não sobrou nada?

Você chora nos meus braços e depois me engana. Não tenho nada, senão palavras transformadas em poesia, e não há nada aqui sobre o que criar, até que eu olho para o seu rosto ossudo, enferrujado, tão sem esperança, mas cheio de um tipo de arte que se faz vermelha nas suas bochechas e então há vida. Preciso sair daqui. Preciso me abrir para uma inspiração que não venha da ideia das suas mãos no meu corpo, subindo em carícia até a minha cabeça — elas então acariciariam meu cabelo com tanta delicadeza antes de abrir meu crânio, arrancar meu cérebro de dentro dele, apreciar meu processo de pensamento e perceber que a melhor coisa de se sentir entre os seus lábios, com a sua língua, não é a minha própria boca, mas sim o meu bem mais valioso, que é o conhecimento.

Até onde irei nessa busca incessante por inspiração? Não encontro nenhuma. Presa nesta selva de concreto fantasma, cidade morta, cidade surrada. Há em mim um anseio que a esta altura já virou parte do meu ser, com sede de estrada, de viagem, de cura. Vai durar para sempre? Ele está aqui desde que me mudei, mas agora nada se move dentro de mim. Queria que você se movesse. Finjo me importar, ser corajosa, ser selvagem. Talvez fingir seja tudo o que eu sei. Talvez a verdade seja relativa, como todos dizem. Fui ferida, agora, pela ideia de nunca ter a experiência de você por inteiro.

Não restam lágrimas a chorar, pois já chorei o bastante para uma vida inteira, e ainda assim sou apenas uma garota procurando alguém que beije a minha mente como jamais beijaria o meu coração, para que eu possa chorar mais um pouco por isso. Não posso pendurar a minha vida em alguém que tolera o meu amor, pois ele nunca foi amado de volta em toda a sua existência, embora a minha aparência e a minha voz mansa e as minhas bochechas fofas já tenham sido adoradas. Então hoje eu choro e repito o seu nome até me desidratar. Mas à medida que as lágrimas continuam a escorrer pelos nossos rostos — pois você começou a chorar seguindo o meu exemplo — começo a considerar arrancar o meu coração e entregá-lo a você numa bandeja de ouro, dourada pela tristeza que pairava tão suavemente sobre as nossas cabeças e nos fez acreditar que o amor é sempre casual.

— Maria de Lourdes M. Alves

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